O comprometimento político e a utopia da organização

Fico assustada ao pensar que já não me surpreendo com a falta de organização dos serviços que, filosoficamente (ou talvez devo dizer utopicamente) foram criados para servir a própria sociedade, e no entanto, comportam-se com prepotência e com o mínimo de comoção humana.

Como estudante de jornalismo e repórter, venho acompanhando de perto o drama da escola de primeiro grau incompleto Aurélio Porto. Há um ano, a escola luta, junto à Secretaria de Obras Públicas e Saneamento do Estado, por recursos para a ampliação e melhoria do prédio da instituição de ensino.

A situação é tão séria, que até mesmo a cozinha da escola foi interditada, em 2006, por não apresentar condições favoráveis ao preparo da alimentação dos alunos. E desde então os estudantes, muitos tendo a única refeição na escola, têm apenas bolachas para a alimentação.

Para piorar a situação, os sanitários também foram interditados, devido ao estado precário da infraestrutura.

A escola completa 50 anos no mês de junho.  Comporta 200 alunos, e tem estrutura preparada para no máximo 100 estudantes. Ao conseguir liminar, no ano passado, para a realização das modificações necessárias, a comunidade escolar pensou ter conquistado o sonho de uma instituição digna para os alunos. Mas apesar disso, caiu em sucessivas frustrações. Uma consequência da terrível burocracia que reina no nosso país.

Quando finalmente um projeto é aceito e assinado por integrantes políticos, e os recursos são garantidos para a realização da tão sonhada obra, problemas e mais problemas aparecem.

A obra, finalmente iniciada, é interrompida duas semana depois de seu começo.

Um erro verificado na estrutura determinada pelo projeto, somado à troca do secretário de Obras do Estado, fez da ampliação da escola Aurélio Porto um sonho cada vez mais distante.

O projeto, reformulado em apenas dois dias pelo engenheiro responsável, foi enviado à Secretaria de Obras há dois meses, e permanece lá trancado desde então.

A comunidade escolar está indignada, e com o único fio de esperança prestes a arrebentar.

Como repórter, venho acompanhando a situação enfrentada pela escola desde o início das “tentativas” de mudança, com matérias mostrando todas as etapas enfrentadas pela instituição de ensino.

E hoje, acompanhei novamente o desabafo da direção da escola, e a denúncia à falta de respeito com aquela comunidade, cansada das sucessivas promessas quebradas.

Para tentar buscar respostas à situação do projeto, entrei em contato com a Secretaria de Obras do Estado. Os próprios funcionários da escola Aurélio Porto já haviam feito o mesmo, com repetidas tentativas desde que a obra foi trancada.

Não obtiveram respostas.

E ao ligar para a Secretaria, minha ligação foi transferida de setor para setor. Passei por cerca de cinco setores diferentes, vezes voltando para o mesmo setor que havia passado anteriormente.  Nem mesmo os próprios funcionários sabiam direito para que lugar repassar meu pedido.  Aí se confirma tamanha desorganização da pasta.

Depois de finalmente chegar ao setor “certo”, não haviam pessoas disponíveis para repassar as informações necessárias. E ainda, pedindo para que eu voltasse a entrar em contato com a Secretaria mais tarde. Ha, fiquei com vontade é de gargalhar. Depois de cerca de 20 minutos de espera na linha…Depois de ouvir tentativas de esclarecimento, do tipo: 

- Não podemos responder por esse tipo de assunto sem a presença do responsável… – ou – Você tem que entender que em menos de cinco meses passamos por três secretarios diferentes. Essas coisas levam tempo, necessitam de trâmites burocráticos-

E eu com isso! Todos sabemos dos “trâmites burocráticos”! Os projetos continuam, a responsabilidade de organização não é minha! Mas a informação é pública, temos direito à ela!

Os salários dos políticos, pagos por nós, são altos o suficiente para honrar um trabalho digno, e um esforço de organização estrutural.

E depois de persistir, tive que lidar com a arrogância da funcionária. Ao me pedir o número do processo, eu não soube informar. Sei que a informação agiliza a procura, no entanto, ela não é essencial. Por isso, informei o nome da escola, e tive como resposta:

Mas assim você complica a minha vida, devem ter mais três mil escolas com esse nome! -.

Fui obrigada a responder:

 - Não se preocupe, só existe uma escola com esse nome na cidade onde o projeto estava previsto para acontecer -.

E somente com essa resposta, a funcionária disse que iria procurar o projeto para me informar a atual situação.

É de indignar. Foi necessário fazer um discurso, e lidar com a indelicadeza e prepotência de um setor política, que é, teoricamente, criada para servir a população, para que o projeto fosse procurado. Para adquirir uma informação que é do direito da população!

 E mesmo assim, nenhuma resposta foi dada. Uma situação que envolve a educação, e influi decisivamente na qualidade do ensino foi simplesmente ignorada…Mais uma vez, o direito à informação foi tirado do cidadão.

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