A face escondida do Pan

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A conquista dos jogos Panamericanos no Rio de Janeiro foi uma vitória… 

 

 

 

väeo vitoria no pan no brasil

No entanto, será que o Brasil está realmente pronto para cediar os jogos? – Será esse um investimento justo, onde o governo brasileiro espera tanto tempo para enfim dar vez ao esporte, enquanto atletas e entidades travam a eterna luta em busca de apoio financeiro?

 

 

Que o esporte está desvalorizado no Brasil, isso não é novidade. E que o futebol se transformou na única categoria com amplo espaço na mídia, bom, isso também não.

 

 

 Apesar dessas duas realidades, ainda considero um contrasenso realizar um campeonato como o Panamericano em um País como o Brasil, que trata uma das principais cidades turísticas com descaso.

 

 

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“– 12 mortos num só dia – na Ilha do Governador, desta vez entre supostos traficantes. Mais um pequeno intervalo e, no Morro do Zinco, no Estácio, seis jovens procedentes da cidade de Macaé são arrancados de uma Kombi que havia errado o caminho e sumariamente fuzilados por traficantes.”- site observatório da Imprensa. 

“O caos esvaziou as ruas do Catumbi, impediu sepultamentos e velórios no cemitério do bairro e parou o trânsito perto do Túnel Santa Bárbara, ligação entre o centro e a zona sul do Rio. A guerra do tráfico deixou pelo menos 19 mortos ontem, em dois tiroteios” – site O Estadão 

 

 

 

 

Esses dois trechos acima, são exemplos desse descaso. O Rio de Janeiro se transformou em um palco marcado pela cena do terrorismo urbano. Dia após dia, a mídia anuncia novas tragédias, novas vítimas do confronto entre polícia e traficantes.

 

 

Como justificar o retrocesso social dessa cidade, a cidade maravilhosa, e a violência crescente? – Falta de verba para investimentos? – Que hipocrisia!

 

Essa idéia passa muito longe do “espelho” que os vídeos publicitários do Pan tentam retratar.

 

Foi preciso um evento como o Panamericano para que o governo federal decidisse investir pesado em programas sociais e em segurança. Investimentos que têm em sua origem o medo da má repercussão que a violência instaurada no país pode repercutir no mundo.

 

Foi preciso essa pressão para que fossem desenvolvidos programs sociais de capacitação de jovens para atuação como guias durante o campeonato.

 

Foi preciso essa pressão para que o governo federal adquirisse 1.768 viaturas policiais.

R$100 milhões de reais na compra dos veículos, para aturem no serviço de ronda durante os jogos do pan.

 

Investimentos pesados na reforma de vários espaços a serem utilizados.

 

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E também, na construção da vila olímpica para a estadia dos atletas.

 

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De onde surgiu tanto dinheiro, de repente, para tantos investimentos? Por que priorizar um evento como esse, ao invés de investir em programas sociais nacionais, em condições de ensino no país, em segurança pública em nível nacional?

 

O esporte é uma forma de resgate social, no entanto, enquanto o país investe na recepção adequada de um campeonato mundial, atletas brasileiros lutam eternamente por condições dignas, para desenvolver a modalidade. Técnicos retiram da própria renda recursos para manter o atleta em treinamento.

 

O que mais causa indignação, é o apoio descarado de símbolos do esporte  - caso Zico – que apóiam a realização de um campeonato como o panamericano, sem levantar questões importantes sobre a falta de apoio permanente aos atletas em nosso país.

 

O Brasil vai receber 5.500 atletas, de 42 países. Em uma cidade como o Rio de Janeiro, que vive um realidade de guerrilha constante. Será que é preciso contextualizar ainda mais esse contrasenso?

  

O comprometimento político e a utopia da organização

Fico assustada ao pensar que já não me surpreendo com a falta de organização dos serviços que, filosoficamente (ou talvez devo dizer utopicamente) foram criados para servir a própria sociedade, e no entanto, comportam-se com prepotência e com o mínimo de comoção humana.

Como estudante de jornalismo e repórter, venho acompanhando de perto o drama da escola de primeiro grau incompleto Aurélio Porto. Há um ano, a escola luta, junto à Secretaria de Obras Públicas e Saneamento do Estado, por recursos para a ampliação e melhoria do prédio da instituição de ensino.

A situação é tão séria, que até mesmo a cozinha da escola foi interditada, em 2006, por não apresentar condições favoráveis ao preparo da alimentação dos alunos. E desde então os estudantes, muitos tendo a única refeição na escola, têm apenas bolachas para a alimentação.

Para piorar a situação, os sanitários também foram interditados, devido ao estado precário da infraestrutura.

A escola completa 50 anos no mês de junho.  Comporta 200 alunos, e tem estrutura preparada para no máximo 100 estudantes. Ao conseguir liminar, no ano passado, para a realização das modificações necessárias, a comunidade escolar pensou ter conquistado o sonho de uma instituição digna para os alunos. Mas apesar disso, caiu em sucessivas frustrações. Uma consequência da terrível burocracia que reina no nosso país.

Quando finalmente um projeto é aceito e assinado por integrantes políticos, e os recursos são garantidos para a realização da tão sonhada obra, problemas e mais problemas aparecem.

A obra, finalmente iniciada, é interrompida duas semana depois de seu começo.

Um erro verificado na estrutura determinada pelo projeto, somado à troca do secretário de Obras do Estado, fez da ampliação da escola Aurélio Porto um sonho cada vez mais distante.

O projeto, reformulado em apenas dois dias pelo engenheiro responsável, foi enviado à Secretaria de Obras há dois meses, e permanece lá trancado desde então.

A comunidade escolar está indignada, e com o único fio de esperança prestes a arrebentar.

Como repórter, venho acompanhando a situação enfrentada pela escola desde o início das “tentativas” de mudança, com matérias mostrando todas as etapas enfrentadas pela instituição de ensino.

E hoje, acompanhei novamente o desabafo da direção da escola, e a denúncia à falta de respeito com aquela comunidade, cansada das sucessivas promessas quebradas.

Para tentar buscar respostas à situação do projeto, entrei em contato com a Secretaria de Obras do Estado. Os próprios funcionários da escola Aurélio Porto já haviam feito o mesmo, com repetidas tentativas desde que a obra foi trancada.

Não obtiveram respostas.

E ao ligar para a Secretaria, minha ligação foi transferida de setor para setor. Passei por cerca de cinco setores diferentes, vezes voltando para o mesmo setor que havia passado anteriormente.  Nem mesmo os próprios funcionários sabiam direito para que lugar repassar meu pedido.  Aí se confirma tamanha desorganização da pasta.

Depois de finalmente chegar ao setor “certo”, não haviam pessoas disponíveis para repassar as informações necessárias. E ainda, pedindo para que eu voltasse a entrar em contato com a Secretaria mais tarde. Ha, fiquei com vontade é de gargalhar. Depois de cerca de 20 minutos de espera na linha…Depois de ouvir tentativas de esclarecimento, do tipo: 

- Não podemos responder por esse tipo de assunto sem a presença do responsável… – ou – Você tem que entender que em menos de cinco meses passamos por três secretarios diferentes. Essas coisas levam tempo, necessitam de trâmites burocráticos-

E eu com isso! Todos sabemos dos “trâmites burocráticos”! Os projetos continuam, a responsabilidade de organização não é minha! Mas a informação é pública, temos direito à ela!

Os salários dos políticos, pagos por nós, são altos o suficiente para honrar um trabalho digno, e um esforço de organização estrutural.

E depois de persistir, tive que lidar com a arrogância da funcionária. Ao me pedir o número do processo, eu não soube informar. Sei que a informação agiliza a procura, no entanto, ela não é essencial. Por isso, informei o nome da escola, e tive como resposta:

Mas assim você complica a minha vida, devem ter mais três mil escolas com esse nome! -.

Fui obrigada a responder:

 - Não se preocupe, só existe uma escola com esse nome na cidade onde o projeto estava previsto para acontecer -.

E somente com essa resposta, a funcionária disse que iria procurar o projeto para me informar a atual situação.

É de indignar. Foi necessário fazer um discurso, e lidar com a indelicadeza e prepotência de um setor política, que é, teoricamente, criada para servir a população, para que o projeto fosse procurado. Para adquirir uma informação que é do direito da população!

 E mesmo assim, nenhuma resposta foi dada. Uma situação que envolve a educação, e influi decisivamente na qualidade do ensino foi simplesmente ignorada…Mais uma vez, o direito à informação foi tirado do cidadão.